quinta-feira, fevereiro 23, 2017

O Senhor das Moscas

Eu não ligo mais para esse mundo
Eu só quero viver minha própria fantasia.
O destino nos trouxe a estas praias
O que tinha que ser agora está acontecendo.

Eu descobri que gosto desta vida em perigo
Viver no limite nos faz sentir como um só.
Quem liga agora para o que é certo ou errado, isto é a realidade.
Matando nós sobrevivemos, onde quer que possamos vagar,
Onde quer que possamos nos esconder, temos que fugir.

Eu não quero que a existência termine.
Nós devemos nos preparar para os elementos.
Eu só quero sentir que somos fortes
Nós não precisamos de um código de moralidade.

Eu gosto de toda essa emoção misturada e raiva
Isso traz à tona o animal,
o poder que você pode sentir.
E sentindo-nos tão altos com toda essa adrenalina
Excitados, mas assustados de acreditar no que nos tornamos.

Santos e pecadores
Algo dentro de nós
Nós somos o senhor das moscas.

Santos e pecadores
Algo que nos quer
Para ser o senhor das moscas.


                                        Iron Maiden
                                        Lord of the Flies
                                        Álbum: The X Factor (1995)

*       *       *

Quando um livro atinge o status de clássico, seu autor ganha o raro privilégio da imortalidade: seu nome continuará a ser citado séculos e, em casos extremos, milênios depois de sua morte biológica. Em compensação, o livro, pela exposição e influência que passa a ter, vira objeto de inúmeros estudos, e, por consequência, fica sujeito a todo tipo de interpretação – muitas delas que, estou certo, deixariam o autor sem fala se lhe perguntassem a respeito. Por mais que eu ame o estudo da literatura, uma coisa que sempre me incomodou nele, pelo menos dentro do ambiente acadêmico, foi essa obrigatoriedade de sempre encontrar algum significado oculto ao analisar qualquer obra… Significados esses que, com toda a probabilidade, em sua maioria jamais passaram pela cabeça do autor. Uma vez que um livro passa a ser considerado um clássico, parece se tornar inconcebível a possibilidade de que, ao escrevê-lo, o autor quisesse dizer exatamente aquilo que disse, e nada mais que isso. Citando Stephen King, que, por sua vez, estava citando Bob Dylan, a explicação deve ser que, quando você tem muitos garfos e facas, é preciso cortar alguma coisa. Não que eu ache que O Senhor das Moscas seja um exemplo de livro que diz claramente tudo o que quer dizer: pelo contrário, ele sem dúvida apresenta diversas alegorias e metáforas, e lê-lo apenas como história de aventuras seria perder de vista seus aspectos mais interessantes. Apenas acho exagerado (forçado, se quiserem) ficar tentando ver nele tudo quanto é significado político, como já vi fazerem. A meu ver, é muito mais razoável interpretá-lo como um convite a refletir sobre a natureza do ser humano e sobre a sociedade, que, no fim das contas, é um desdobramento de nossa própria essência, já que interagir uns com os outros é uma parte indissociável da condição humana.

Para (tentar) ser mais claro, eu poderia dizer que sim, certamente há alegorias políticas em O Senhor das Moscas; porém, discordo de quem quer ver aí referências específicas: "Jack é Hitler", ou mesmo o nazifascismo de modo geral. Para mim, isso é, ao mesmo tempo, forçar uma interpretação e limitar o alcance da obra. Talvez, na verdade, eu veja O Senhor das Moscas como uma história que se presta melhor à aplicabilidade que à alegoria, conforme a diferença entre as duas é explicada por Tolkien: "Acho que muitos confundem 'aplicabilidade' com 'alegoria', mas a primeira reside na liberdade do leitor, e a segunda, na dominação proposital do autor."

Também já li em algum lugar que o tema deste livro, ou, ao menos, um de seus temas, é o do mal supostamente inerente ao ser humano – e essa ideia já é mais difícil de desprezar, considerando o título da obra: 'Senhor das Moscas' é a tradução literal de Ba'al Zebuth, nome de um deus cultuado pelos antigos fenícios e cananeus, e que era associado tanto à chuva e à fertilidade (quando de bom humor) quanto à morte, principalmente a morte pela peste (quando enfurecido), donde a ligação com as moscas. O nome dessa divindade chegou aos tempos modernos como Beelzebub em inglês, Belzebu em português, e formas parecidas nas outras línguas – e, em todas elas, é um dos inúmeros nomes do diabo da tradição judaico-cristã. Com um título desses, não parece forçado aceitar que se trate de um livro a respeito do mal.

Na história, é tempo de guerra. Não sabemos qual guerra, e isso não é relevante para seus fins. Ocorre que um avião transportando dezenas de estudantes ingleses é abatido por artilharia inimiga e cai numa ilha aparentemente desabitada do Pacífico; a maioria dos jovens passageiros escapa, mas nenhum membro da tripulação sobrevive, de modo que os garotos, com idades variando de seis a doze anos, estão por sua própria conta, sem qualquer adulto para ajudá-los, tampouco para lhes dizer o que fazer ou não fazer. Estão assustados, é claro, mas também empolgados, pois aquela situação oferece mais oportunidades para aventuras e descobertas do que eles normalmente teriam em toda a vida. Dois deles, Ralph e Porquinho, encontram uma grande concha que, quando soprada da forma adequada, produz um som potente que pode ser ouvido praticamente em toda a ilha, e que logo se torna o sinal de reunir. Os dois garotos são muito diferentes, mas, de certa forma, se completam: Ralph, por ser bonito e ter um talento natural para liderar, preenche o papel do herói no imaginário dos companheiros, e é logo eleito o chefe; Porquinho é gordo e tímido, mas claramente o mais inteligente ali. Pouco depois, entra em cena uma terceira figura proeminente, Jack Merridew, que lidera um grupo que costumava ser um coro, e que também viajava no avião. Por estar acostumado ao comando, Jack mostra-se disposto a rivalizar com Ralph pela liderança geral, mas, quando o outro é eleito por aclamação, parece, no começo, aceitar o fato; Ralph lhe permite conservar a liderança do coro, e os dois parecem estar formando uma amizade.


A primeira coisa sobre a qual O Senhor das Moscas nos leva a refletir (ou, ao menos, comigo foi assim) é o fato de que, por mais civilizados e sofisticados que nos tornemos, nada mudará a verdade básica de que a selvageria sempre será o estado natural do homem. Não é preciso muito para revertermos a ela – e, em se tratando de crianças, é preciso menos ainda. Em questão de semanas, os elegantes e bem-educados alunos de tradicionais instituições de ensino britânicas já estão lembrando mais uma tribo pré-histórica – quer pela aparência, quer pelo comportamento. Cansados de sua dieta de frutas do mato, os garotos voltam seus olhos para os porcos selvagens que habitam a ilha… Porém, muito mais determinante que a vontade de todos de comer carne é o forte desejo de Jack de experimentar aquelas sensações que apenas um caçador conhece: o "poder de impor sua vontade a uma coisa viva". Abater seu primeiro porco torna-se uma obsessão, e ele converte os antigos membros do coro num time de caçadores – que, aos poucos, também vão se adaptando a fazer as vezes de sua guarda pessoal, sendo leais antes a ele que a Ralph. O primeiro conflito sério acontece quando Jack e seu grupo retornam de sua primeira caçada bem-sucedida (depois de muitas tentativas falhadas), carregando um porco morto: para ir caçar, eles abandonaram a fogueira que todos haviam concordado em sempre manter acesa no topo de um morro, e ela se apagou. O objetivo da fogueira é chamar a atenção de algum navio que porventura passe próximo à ilha, o que é a única chance de serem resgatados. De fato, um navio apareceu – Ralph o viu. E passou direto, pois a fogueira estava apagada.

A partir daí, conforme vai acumulando sucessos na caça, Jack vai ficando cada vez mais disposto a desafiar a autoridade do líder; matar parece aumentar sua autoestima e diminuir sua inclinação para obedecer, seja às ordens de Ralph ou a regras de qualquer espécie. Esse espírito contagia primeiro o coro, e depois, gradualmente, alguns dos outros.

Cada um dos principais personagens de O Senhor das Moscas passa por sua própria jornada de crescimento, o que não quer dizer necessariamente um processo de melhoria, mas apenas o caminho inevitável de tornar-se aquilo que está destinado a ser. Ralph, por exemplo, aprende a duras penas o que liderar realmente significa. Todo mundo já sonhou em ser o chefe da turminha da vizinhança (e quem nunca, que atire o primeiro coelho azul de pelúcia). Pudera: na cabeça de uma criança, "chefe" é alguém que manda em todo mundo e em quem ninguém manda, que pode fazer tudo o que quiser e não precisa fazer nada que não queira; é só status e privilégio. Porém, Ralph não demora a compreender que o posto é uma responsabilidade pesada, que exige sacrifícios e, muitas vezes, é desesperador. Tendo sido professor, o autor do livro, William Golding (1911-1993), sem dúvida sabia bem como são as crianças, particularmente os meninos. E o fato é que meninos se entusiasmam por uma ideia com a mesma facilidade com que perdem o interesse nela pouco depois. Quando Ralph sopra a concha, todos comparecem sem demora; parece haver algo na solenidade da coisa que torna essas reuniões divertidas, mas as decisões que nelas são tomadas, embora referendadas por todos e, a princípio, seguidas, são esquecidas em pouco tempo. Não é fácil ser chefe desse jeito.

Quando um dos garotos menores começa a falar sobre um "bicho" que aparece à noite, parece, a princípio, que a coisa não é mais que um pesadelo, ou um medo infantil sem origem definida – mas, quando o menino some sem que ninguém saiba como, e outros passam a acreditar ter visto a criatura, já não é tão fácil ter certeza. Ralph e Porquinho insistem que não pode haver nenhum animal ameaçador, porque nenhum grande carnívoro sobreviveria numa ilha tão pequena, mas ficam sem ter o que responder quando outro dos pequenos afirma que "o bicho sai do mar" – o que multiplica o potencial assustador do boato. Jack, por seu turno, não faz esforço algum para que os outros percam o medo; em vez disso, procura usar o "mito" em benefício próprio, garantindo a todos que, se houver um bicho, ele e seus caçadores vão matá-lo. Se isso for uma alegoria (ou se quisermos exercer a nossa liberdade como leitores para encontrar a aplicabilidade do texto), os caçadores podem simbolizar o exército, e o próprio Jack, qualquer um dos inúmeros ditadores sobre os quais a História nos conta, pois foi assim que a maioria deles chegou ao poder: tirando vantagem do medo que a população sentia, oferecendo proteção, tanto faz se contra ameaças reais ou imaginadas. Em algum momento, um dos personagens pensa em voz alta que "talvez não haja nenhum bicho; talvez sejamos só nós" (não consegui encontrar a passagem para copiar a frase exata, mas é essencialmente isso), referindo-se de maneira alegórica, mas mesmo assim bem clara, ao mal que cada pessoa traz dentro de si – e que, não raras vezes, é projetado no outro, porque fica mais fácil lidar com ele dessa forma. O ódio de Jack por Porquinho também não é gratuito: o gordinho é a voz da razão e do conhecimento, que dissipam o medo. Se Jack permitir que isso aconteça, ficará privado de seu maior trunfo.

Jack leva adiante seu trabalho de sedição, que chega ao ponto da ruptura, com ele e seus seguidores separando-se da "tribo" para formar a sua própria. Para convencer mais garotos a trocar de grupo, ele lança mão de qualquer meio ao seu alcance, desde promessas (principalmente a de que quem o seguir sempre terá carne para comer) até intimidação. À medida em que a inimizade entre os dois grupos vai ficando mais amarga e mais séria, as regras de conduta introjetadas mediante anos de educação vão se revelando como nada mais que um fino verniz, que descasca e cai se não for continuamente reforçado. Enquanto Ralph tenta fazer com que seus companheiros não se esqueçam do que significa ser humano, Jack e os seus vão progressivamente cedendo à tentação da violência e da arbitrariedade, num conflito que acaba por ser mais profundo e de implicações mais graves (ao menos para quem está vivendo a que situação) que o tradicional antagonismo "bem" versus "mal". Não há surpresa quando a tensão descamba para a violência homicida – mas a ausência de surpresa não faz com que o fato deixe de ser chocante. Bem, ao menos deveria sê-lo; não creio que o público dos anos 2000, acostumado a ver violência extrema ser apresentada como uma forma de entretenimento, se perturbe com o final da narrativa. O que eu não consigo ver como um bom sinal.

O Senhor das Moscas, publicado originalmente em 1954, teve o mesmo destino de muitos outros clássicos: não foi nenhum sucesso instantâneo. Sua primeira edição não vendeu nem três mil cópias, mas, redescoberto durante as décadas de 60 e 70, ganhou o status de cult e acabou dando a seu autor o Prêmio Nobel de Literatura em 1983. Hoje é leitura obrigatória em muitas escolas secundárias em todos os países de língua inglesa – e eu sinceramente espero que isso, por si só, não leve muita gente a desenvolver uma antipatia a priori por ele, o que seria mesmo uma pena. A grande sacada do livro, na minha opinião, é a de ter pego um enredo que nada tinha de original (grupos de personagens isolados em ilhas desertas ou lugares semelhantes são um plot que vem sendo explorado desde a Antiguidade) e, a partir disso, criado tantas situações fascinantes e cheias de significados. Além disso, Golding é excelente na arte da narração e da descrição; provavelmente o melhor exemplo disso está no capítulo chamado Visão de Uma Morte, no qual o autor demonstra saber perfeitamente como é uma tempestade nos trópicos – coisa que a maioria dos anglo-saxões não consegue nem imaginar. Em resumo, O Senhor das Moscas deve ser lido, antes de mais nada, por prazer, mas é altamente aconselhável manter um olho aberto para o que ele pode nos ensinar e para as reflexões que pode estimular. E essa é a melhor combinação que podemos encontrar num livro.

quarta-feira, janeiro 18, 2017

Harry Potter e a Criança Amaldiçoada

Depois de Morte Súbita e dos romances policiais escritos sob o pseudônimo de Robert Galbraith, eis J. K. Rowling de volta ao universo de Harry Potter, nove anos depois de Harry Potter e as Relíquias da Morte, conclusão oficial da saga. Os azedos de plantão, é claro, já deram seu veredito: "ela só está a fim de ganhar mais dinheiro!" Rowling simplesmente não precisa disso: ela já tem o suficiente para assegurar uma vida mansa a todos os seus descendentes até a vigésima ou trigésima geração, com folga. Portanto, ela não está nisso pelo dinheiro – pelo menos, não mais. Se continua escrevendo, é porque gosta, e seus fãs certamente não vão reclamar.

Harry Potter e a Criança Amaldiçoada é algo um tanto diferente. A história, escrita por Rowling em cooperação com John Tiffany e Jack Thorne, foi concebida como roteiro para uma peça de teatro, a ser dirigida por Tiffany, e que estreou (com ingressos esgotados e todo o alarde que seria de se esperar) no Palace Theatre, em Londres, em 30 de julho de 2016. O livro foi lançado no Brasil em 31 de outubro – nada mais adequado: em pleno Dia das Bruxas. Confesso que fiquei meio decepcionado ao folheá-lo pela primeira vez, pois, embora soubesse que a história teve origem no teatro, imaginava que a autora tivesse reescrito o roteiro sob a forma de romance para a publicação, mas não: o que temos no livro é o próprio roteiro. Ler desse jeito causa estranheza a quem está acostumado a acompanhar as peripécias do jovem bruxo, mas não será isso que irá impedir os potterheads (fãs apaixonados da saga) espalhados pelo planeta de devorar essa nova aventura.

A história contada na peça inicia-se 19 anos depois dos eventos narrados em Harry Potter e as Relíquias da Morte – portanto, em 2016 mesmo – e se estende alguns anos para o futuro. Harry está agora com 37 anos de idade, trabalha no Ministério da Magia (para ser exato, é chefe do Departamento de Execução das Leis da Magia), está casado com Gina Weasley e tem três filhos: Tiago, Alvo e Lílian (a tradutora Anna Vicentini teve que seguir o controverso sistema de nomenclatura adotado por Lia Wyler, que traduziu os sete volumes anteriores e tinha por hábito traduzir nomes próprios e até mesmo – sei lá com qual critério – rebatizar certos personagens). Tiago, o mais velho, e a caçula, Lílian, foram batizados em homenagem ao pai e à mãe de Harry, e parecem ser filhos perfeitos. A ovelha negra da família é o do meio, Alvo Severo Potter. Seu primeiro nome homenageia o lendário diretor da não menos lendária Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Alvo Dumbledore; o segundo, Severo Snape, o professor que Harry odiou durante sete anos, só para descobrir ao final que, na verdade, o homem era um herói. A peça começa quando Alvo está indo para Hogwarts pela primeira vez, junto com sua prima Rosa – filha de Rony Weasley, irmão de Gina e melhor amigo de Harry desde sempre, e de Hermione Granger, outra grande amiga e aluna mais brilhante de Hogwarts em sua época. Rosa é de opinião que, na viagem de um dia inteiro de trem até a escola, ela e Alvo, a exemplo do que aconteceu com seus pais, poderão ter a chance de fazer as amizades que irão influenciar seus destinos pela vida afora, e mais, também acredita que, por serem quem são, todos vão querer ser amigos dos dois, de modo que poderão escolher à vontade. Para a decepção da garota, o único amigo que seu primo faz é Escórpio Malfoy… Por ironia, filho de Draco Malfoy, arqui-inimigo de Harry durante toda a vida escolar de ambos.

(Toda vez que eu lia o nome Escórpio, era impossível não pensar na arma de cerco romana.)

As surpresas não param por aí. Na cerimônia de seleção, na qual o Chapéu Seletor decide para qual das quatro casas de Hogwarts cada novo aluno será mandado, Alvo acaba sendo designado para a Sonserina, que foi desde sempre a casa dos Malfoy, além de ter sido a de Tom Riddle, antes de ele se tornar o temido Lorde Voldemort. Embora isso vá lhe permitir ter a companhia de seu novo amigo quase em tempo integral, não deixa de ser um choque, pois, até onde se tem lembrança, todos os ancestrais e parentes de Alvo, pelos dois lados da família, sempre foram da Grifinória.

Seja como for, Alvo e Escórpio logo percebem que é uma sorte terem um ao outro: nenhum dos dois tem praticamente qualquer outro amigo. Alvo não demonstra talento para nada em particular, nem mesmo para o voo de vassoura, o que acaba com as esperanças que muita gente alimentava, de que ele viesse a honrar os feitos de seu pai e seu avô no campo de quadribol; Escórpio é inteligente e estudioso, mas tímido. De modo que os dois rapidamente assumem seu papel como aquele tipo de estudante que pode ser encontrado em qualquer escola, mágica ou não, esgueirando-se pelos corredores, procurando evitar ser visto, já que é presa fácil para bullies. Alvo se sente de forma oposta ao que acontecia com o pai em sua idade: enquanto Harry detestava as férias (porque tinha que passá-las com seus insuportáveis tios trouxas) e contava os dias para voltar a Hogwarts, Alvo detesta a escola, se bem que em casa não pareça se sentir muito melhor. Embora Harry se esforce por ser um bom pai, o garoto não gosta nem um pouco do fato de ser filho do famoso Harry Potter, e menos ainda de todas as expectativas que isso naturalmente cria nas pessoas – expectativas essas que, em sua própria opinião, ele sempre irá frustrar.

Todavia, por pior que Alvo ache sua vida, a de Escórpio é ainda pior. Muita gente ainda associa os Malfoy a Voldemort, de quem o avô de Escórpio, Lúcio Malfoy, foi um fiel servidor – e correm boatos persistentes de que Astória, esposa de Draco e mãe de Escórpio, foi enviada para o passado a fim de engravidar do próprio Voldemort, presumivelmente quando ele ainda era Tom Riddle, e humano o suficiente para gerar filhos. Ou seja, se esses boatos tiverem fundamento, significa que o verdadeiro pai de Escórpio é… Você-Sabe-Quem. Porém, verdade seja dita, o garoto não parece lembrar em nada o grande bruxo das trevas: segundo Alvo, Escórpio é bom, o que nenhum filho de Voldemort poderia ser; já segundo Draco, ele é por natureza um seguidor, e não um líder, o que tampouco combina com uma possível ascendência "voldemortiana". E há mais: se Astória tivesse viajado ao passado, só poderia ter sido por meio de um viratempo, um dispositivo mágico capaz de realizar esse feito – e todos os viratempos de cuja existência se tinha conhecimento estavam guardados no Ministério, onde foram destruídos durante uma batalha entre Comensais da Morte (os servos de Voldemort) e os membros da Ordem da Fênix, comandada por Dumbledore; esse episódio está narrado num dos últimos livros da saga, não lembro ao certo qual. Portanto, e por vários motivos, os boatos parecem um completo disparate, o que não impede que continuem a ser um doloroso espinho na carne de Escórpio.

Os primeiros três anos de Alvo Potter em Hogwarts passam em rápidos flashes. O importante para os fins da peça é o que acontece em seu quarto ano, quando ele e seu amigo Escórpio estão com 14 – não por acaso, a mesma idade que Harry tinha ao tomar parte no Torneio Tribruxo, como sabe quem leu Harry Potter e o Cálice de Fogo, o quarto volume da série. O torneio, realizado durante o ano letivo de 1994-95, terminou de forma terrível e trágica, com o retorno de Voldemort e a morte do outro campeão de Hogwarts, Cedric Diggory (a Sra. Lia Wyler que me desculpe, mas eu me nego a chamar o coitado de "Cedrico"!). Durante todo o torneio, os dois garotos haviam vivido uma relação de rivalidade e admiração mútua ao mesmo tempo, e, ao concluírem a última tarefa da competição, que daria a vitória a quem o fizesse, nenhum dos dois achou justo que o outro fosse derrotado: decidiram vencer juntos, e, para isso, pegaram ao mesmo tempo a taça da vitória – que, sem que eles imaginassem, estava enfeitiçada para levar instantaneamente quem a tocasse até a presença de Voldemort. O bruxo das trevas só estava interessado em Harry, de modo que, ao ver que havia outro rapaz com ele, displicentemente ordenou a um de seus servos que o matasse. Cedric, portanto, teve uma morte tola e desnecessária, coisa pela qual Harry jamais se perdoou – como se tivesse culpa.


Alvo, naturalmente, conhece essa história. Acontece então que, pouco antes de ele partir para seu quarto ano em Hogwarts, Harry e seus homens dão uma batida na qual estouram um covil de bruxos das trevas, e apreendem, entre outras coisas, um viratempo clandestino. O ocorrido chega aos ouvidos do jovem Alvo, enquanto o perigoso objeto fica sob custódia no Ministério – e, por falar nisso, a atual Ministra da Magia é ninguém menos que Hermione Granger (agora Granger-Weasley). Por uma daquelas coincidências fatais, Alvo também ouve uma conversa entre seu pai e Amos Diggory, o pai de Cedric, hoje um ancião solitário e inválido que vive num lar para bruxos idosos. Sabendo que Harry agora tem acesso a um viratempo, Amos implora que ele o use e volte no tempo para impedir a morte de seu filho, mas Harry, com dor no coração, tem que se recusar: de acordo com os mais conceituados teóricos da magia, o máximo que uma pessoa pode voltar no passado sem perigo de causar perturbações graves no fluxo do tempo é de cinco horas – quem pode prever as possíveis consequências de uma intervenção num fato ocorrido há 22 anos? Alvo, por outro lado, compadecido do velho, fascinado pela possibilidade de corrigir o que considera um dos erros de seu pai e sem um pingo de juízo na cabeça, decide empreender a arriscada missão. Para isso, conta com a ajuda de seu inseparável Escórpio e de uma jovem que diz chamar-se Delfine ("Delfi") e ser sobrinha de Amos Diggory, prima de Cedric. Os dois garotos fogem do Expresso de Hogwarts em plena viagem – o que, até onde se sabe, ninguém antes deles jamais conseguiu fazer, embora tenha sido tentado por transgressores legendários como Sirius Black e os gêmeos Fred e Jorge Weasley –, reúnem-se a Delfi, e os três invadem o Ministério em busca do fatídico viratempo… E, embora essas já pareçam ser façanhas notáveis, isso é apenas o começo. No decorrer da história, fica provado algo que quem, por enquanto, só leu Harry Potter talvez ainda não tenha percebido, mas que todo leitor de ficção científica sabe: que mexer no passado é extremamente perigoso, não importa se por meios tecnológicos ou mágicos. Por mais tentadora que pareça a ideia de ser testemunha ocular de grandes acontecimentos históricos ou de fazer um safári em meio a dinossauros ou mamutes, acho que, no fim das contas, é uma boa coisa que a viagem no tempo seja, por tudo o que se sabe, impossível segundo as leis da física… Embora seja verdade que já se disse o mesmo a respeito de ultrapassar a barreira do som, coisa que, hoje em dia, até meras aeronaves comerciais fazem tranquilamente.

Harry Potter e a Criança Amaldiçoada, sem dúvida, mantém o espírito da saga; se reescrito, talvez não rendesse um romance, mas daria um conto de boa extensão e, certamente, irresistível para qualquer um dos milhões de "órfãos" que tiveram pelo menos alguns dias de depressão quando terminaram de ler o que acreditavam ser o último livro das aventuras de Harry. Além de nostálgico (inevitável…), é também empolgante rever, agora na idade adulta, aqueles personagens cuja infância e adolescência acompanhamos tão de perto. Muita coisa continua igual e muita coisa mudou. O próprio Draco Malfoy tornou-se menos arrogante, imagino que tanto por ter amadurecido quanto por causa das coisas que passou ao tentar seguir os passos do pai como um Comensal da Morte, e, levado pela necessidade de proteger o filho, aceita o que duas décadas antes teria, sem dúvida, considerado impossível: colocar-se ao lado de Harry como aliado. Talvez, até, como amigo, possibilidade que fica em aberto numa cena da peça. Senti muita falta do gentil e atrapalhado meio-gigante Rúbeo Hagrid, que só aparece em cenas que retratam o passado; não temos nenhuma notícia dele, por onde anda ou o que está fazendo na época em que se passa a ação principal. No mais, assistir a essa peça deve ser uma experiência e tanto. Há coisas que o roteiro descreve e que só podemos ficar imaginando como, em nome de Merlim, podem ser apresentadas num palco: os efeitos especiais devem ser de deixar no chinelo muita coisa que se vê no cinema (não nos filmes de HP, é claro). Quem sabe não tenhamos uma surpresa e seja anunciada uma montagem brasileira? O surgimento de um filme é inevitável, mas ainda deve demorar, e eu realmente torço para que seja um filme – não uma totalmente desnecessária "trilogia", ou coisa que o valha. É esperar pra ver.

quinta-feira, dezembro 29, 2016

Rogue One: Uma História Star Wars


Fomos, Cintia e eu, ver o novo filme da franquia Star Wars, anteontem, no Cinépolis 4D do Shopping JK Iguatemi, em São Paulo – o mesmo cinema onde vimos Episódio VII: O Despertar da Força, exatamente um ano atrás. Para quem não conhece, trata-se de um cinema muito especial, com poltronas que se movem acompanhando o que acontece no filme, efeitos de vento, e até borrifos de água quando a cena assim exige. É tão legal que a gente até esquece essa bobagem de "4D" no nome! E esse filme, em especial, tornou a experiência bem divertida, fazendo valer os (bons) reais pagos a mais no ingresso. Mas vamos falar do que realmente importa.

Embora só tenhamos sabido disso no dia seguinte, vimos Rogue One no mesmo dia em que faleceu a atriz Carrie Fisher, que interpretou a Princesa Leia na trilogia clássica, nos anos 70 e 80, e também em O Despertar da Força. Fisher, de apenas 60 anos, sofreu um ataque cardíaco durante um voo da Inglaterra para os Estados Unidos, vindo a morrer horas depois no hospital da Universidade da Califórnia, em Los Angeles – e, como minha namorada observou de forma tão sagaz, a vida não é justa mesmo, pois a atriz deixa este mundo bem no momento em que começava a voltar a chover em sua horta. Com a compra da Lucasfilm (detentora dos direitos de Star Wars) pela Disney, em 2012, a promessa feita foi a de que os fãs seriam brindados com um novo filme da franquia todo ano – já que a Disney, sendo a Disney, dispõe de pessoal, estrutura e recursos para tanto. E, depois do necessário período de ajustes de pouco mais de dois anos, a promessa vem sendo mantida: O Despertar da Força dava sequência a O Retorno de Jedi, lançado no distante 1983, e, embora ainda estejamos aguardando pelo Episódio VIII, Rogue One vem para suavizar a espera. Trata-se de um spin-off, ou seja, uma história que não propriamente faz parte da saga, mas ambienta-se no mesmo universo e está, de alguma forma, relacionada a ela.

Outra observação de Cintia: Star Wars nunca esteve tão na moda quanto agora, e os filmes são apenas uma fração do fenômeno. Nas livrarias há, literalmente, dezenas de títulos disponíveis, romances ambientados nesse universo, indo desde as adaptações dos filmes até extrapolações que exploram as muitas lacunas que eles deixam, isso sem falar, é claro, nos milhares de produtos licenciados de todos os tipos. O logo de Star Wars e as caras dos principais personagens estão em qualquer lugar para onde olhemos! Isso, somado ao fato de Leia ter, muito provavelmente, lugar de destaque em todos os episódios da nova trilogia, representaria uma mina de ouro e um salto em termos de fama para Fisher, bem como para seus colegas de elenco, dos quais apenas Harrison "Han Solo" Ford consolidou uma carreira de sucesso no cinema depois de sua participação na franquia (não estou considerando os que já eram nomes consagrados na época, como Peter Cushing ou Alec Guiness). Infelizmente, Fisher não se beneficiará dessas novas oportunidades… Parece que parte de suas cenas destinadas ao Episódio VIII já haviam sido gravadas; resta-nos esperar para ver qual a mágica que o diretor e o roteirista irão fazer para suprir sua falta no restante do filme.


Rogue One, entre outras coisas, responde a uma questão que os fãs mais detalhistas de Star Wars vêm levantando desde 1977, ano em que foi lançado o filme que hoje chamamos de Episódio IV: Uma Nova Esperança, mas que por muito tempo foi conhecido apenas como Star Wars, ou, no Brasil, Guerra nas Estrelas. A questão é: como é possível que a Estrela da Morte, projetada para ser a arma definitiva do Império Galáctico, capaz de destruir planetas inteiros, e que demandou um volume absurdo de recursos e mão de obra, tivesse uma brecha em suas defesas, que Luke Skywalker e os outros pilotos da Aliança Rebelde puderam usar para destruí-la? Nesse novo filme, que se passa imediatamente antes do Episódio IV, ficamos sabendo que o principal responsável pelo projeto da superarma foi o cientista imperial Galen Erso (o dinamarquês Mads Mikkelsen, da série Hannibal), que, no entanto, não concordava com a política tirânica do imperador Palpatine, e, por isso, tentou abandonar a posição que tinha, exilando-se, com a esposa e a filha pequena, num planeta primitivo, onde passou a viver como fazendeiro. Porém, agentes do Império acabam por conseguir localizá-lo e o capturam para obrigá-lo a finalizar o projeto inacabado da Estrela da Morte.

Galen é levado, sua esposa é morta, mas o casal consegue salvar a filha, Jyn, que fica sob a proteção de um homem chamado Saw Gerrera (Forrest Whitaker), um líder rebelde e velho amigo de seu pai. Anos mais tarde, Jyn, já adulta (Felicity Jones), está numa prisão do Império por causa de uma série de pequenas infrações não relacionadas à rebelião, quando é resgatada pelos rebeldes, que sabem quem ela é e planejam usá-la para encontrar Galen – e matá-lo, embora não contem a ela essa última parte. Escoltada pelos rebeldes, Jyn reencontra seu antigo tutor Saw Gerrera, que lhe mostra uma mensagem holográfica que Galen Erso gravou e enviou secretamente. No holograma, entre outras coisas, o cientista revela um segredo: embora tenha sido forçado a colaborar no desenvolvimento da Estrela da Morte, não queria ser responsável por dar ao imperador uma arma que seria usada para fortalecer sua tirania. Então, propositalmente, deixou um ponto fraco, que um piloto hábil e com conhecimento das plantas da Estrela da Morte poderia usar para destruí-la. Rogue One é a história de como os rebeldes obtiveram essas plantas, o que possibilitou aquela vitória épica ao final do Episódio IV, que sagrou o jovem Luke Skywalker como um guerreiro admirado. Para ir em busca dessas preciosas informações, Jyn é acompanhada por um curioso time de combatentes rebeldes sob a liderança do comandante Cassian Andor (Diego Luna). Todos os que compõem esse grupo são personagens cativantes, que certamente ficarão na memória dos fãs, mas já há muitos textos e vídeos pela internet afora tratando deles, de modo que prefiro adotar um foco diferente para o restante deste post. Não que o que vou dizer também já não tenha sido escrito, muito provavelmente, mas são considerações mais pessoais. Vamos a isso…

O que preciso comentar são as surpresas (e o contentamento) que essa nova fase de Star Wars tem trazido para os fãs da velha guarda como eu, proporcionando uma carga de emoção como não experimentávamos desde a trilogia clássica, formada por Episódio IV: Uma Nova Esperança (1977), Episódio V: O Império Contra-ataca (1980) e Episódio VI: O Retorno de Jedi (1983), que marcou época no cinema de ficção científica… Na verdade, classificá-la dessa forma é controverso; eu mesmo sou da opinião de que "fantasia espacial" chega mais perto de definir o que Star Wars é – mas aqui não é o lugar de discutir isso. O importante é que a trilogia clássica marcou época e inaugurou o que hoje é praticamente uma nova mitologia, um universo vastíssimo, cheio de tramas entrelaçadas, aventuras épicas e personagens inesquecíveis. Não que esses primeiros filmes tivessem enredos complexos ou muito inovadores: era a boa e velha luta do bem contra o mal, e pouco mais que isso. Talvez essa simplicidade seja parte da magia, juntando-se à ação vertiginosa, ao visual marcante e aos personagens carismáticos para explicar o que nos fascina tanto. Star Wars nunca terá a mesma complexidade nos roteiros que Star Trek, e dificilmente se prestará tão bem a estimular reflexões sobre questões do mundo real – o que não significa que um seja melhor que o outro: são propostas completamente diferentes (daí por que nós, nerds, ficamos tão contrariados quando um leigo confunde os dois!), e há muita gente que adora ambos, como eu, por exemplo.

Justamente o fato de Star Wars, como regra, tender para a simplicidade nos enredos, faz com que Episódio VII: O Despertar da Força e Rogue One sejam surpreendentes: pela primeira vez na saga, há sugestões de que nem o Império Galáctico nem a Aliança Rebelde são blocos monolíticos, nos quais todos pensam igual. No Episódio VII, conhecemos Finn, um stormtrooper (soldado de infantaria do Império) que tem dúvidas sobre a validade moral da causa que defende, passa a questionar as ordens que recebe, e acaba por desertar e juntar-se aos rebeldes; em Rogue One, descobrimos que dentro da Aliança Rebelde existem dissidências, facções que discordam entre si e membros ambiciosos que não desejam apenas trazer de volta a paz e a justiça dos tempos da Velha República, mas também subir na cadeia de comando e obter poder para si próprios. E pensar que, quando soubemos que Lucasfilm agora pertencia à Disney, chegamos a ter receio de que os novos filmes viessem com argumentos mais infantis!… Até agora, tem sido o contrário. No mesmo rumo vai o final surpreendente e um tanto chocante de Rogue One, que, se alguém me perguntasse antes de eu tê-lo visto, eu diria ser impensável para um filme de Star Wars.


(Parêntese 1: Enquanto assistia a Rogue One, meu queixo caiu lá embaixo ao ver o legendário Peter Cushing – astro de terror dos anos 50, 60 e 70, falecido em 1994 – de volta ao papel de Grand Moff Tarkin, comandante da Estrela da Morte, que havia interpretado no Episódio IV. É claro que eu sabia que a computação gráfica já atingiu um grau de desenvolvimento que torna possível criar imagens extremamente realistas, mas há diferença entre saber isso na teoria e ver um cidadão morto há mais de 20 anos atuando num filme recém-lançado, de tal jeito que quem não soubesse do que se trata poderia pensar que ele não só continua vivo, como não envelheceu nada nos últimos 39 anos, feito os vampiros que matava em seus antigos filmes. Nesse passo, logo não serão mais necessários atores! Também graças aos milagres da computação gráfica, uma Carrie Fisher com pouco mais de 20 anos de idade faz uma rapidíssima aparição bem no final do filme.)

(Parêntese 2: Eu disse há pouco que Star Wars virou quase uma nova mitologia, o que, entre outros efeitos práticos, faz com que nós, fãs de toda a vida, tenhamos a saga tão entranhada no nosso imaginário, que nos parece impossível que algumas pessoas realmente não saibam de certas coisas. Isso causou um incidente engraçado quando Cintia, uma neófita nesse universo, quis ver as duas primeiras trilogias. Levei meus DVDs dos episódios I a VI para a casa dela, e assistimos a tudo juntos – primeiro a trilogia clássica, é claro, e depois a mais recente… Só que, durante aqueles comentários que são de praxe entre um filme e outro, eu deixei escapar a informação de que Darth Vader era pai de Luke e Leia! Claro que ela ficou danada por eu ter estragado a surpresa, mas que culpa eu tenho?! "Luke, eu sou seu pai" já virou uma expressão proverbial, a cena em que essa fala é dita foi reproduzida centenas de vezes em comédias, charges etc… O assunto já rendeu até livros de humor! Como é possível que alguém ainda não saiba??)

(Parêntese 3: Garoto ainda, ao me aboletar diante da TV ao lado de meu pai ou de algum amigo para assistir pela enésima vez à reprise de qualquer dos episódios da trilogia clássica [isso foi antes do tempo do DVD, e não tínhamos videocassete, de modo que reprises eram algo que merecia importância], eu sempre ficava agoniado quando começava a passar aquele inconfundível letreiro inclinado, porque, logo no início dele, dizia Episódio IV, ou V, ou VI… Pois, se aqueles eram os episódios quatro, cinco e seis, isso devia implicar, logicamente, que existissem os episódios um, dois e três, que eu não conhecia! É claro que não podia imaginar que os primeiros episódios, até então, só existiam como uma ideia na cabeça de George Lucas, e só seriam efetivamente filmados muitos anos depois. O mais inacreditável é que, na época, ninguém além de mim jamais pareceu reparar nisso, e hoje muita gente teima comigo que os dizeres Episódio IV, V e VI não existiam nas versões originais, e que só foram introduzidos nas edições lançadas depois que a segunda trilogia já existia… Tsc, tsc.)

Enfim, é muito bom ver que, depois de tanto tempo sem novidades (no cinema, pois nos livros, quadrinhos e games os lançamentos nunca pararam), Star Wars foi retomado com qualidade e com um vigor renovado. Todos ficaremos felizes se a franquia, num futuro relativamente próximo, conseguir rivalizar com Star Trek em número de longas-metragens, e talvez nem mesmo o surgimento de séries de TV seja um sonho tão impossível. Afinal, agora a coisa está nas mãos da Disney, e, se ela continuar demonstrando a mesma competência… Bem, aí nem mesmo o espaço será mais a fronteira final (opa, isso é de Star Trek). Que a força esteja com todos (ah, agora sim!).

Obrigado por tudo, Carrie Fisher. Que a força esteja com você também, onde você estiver agora.


sexta-feira, setembro 16, 2016

O Tigre

Salvo por alguns inevitáveis e esporádicos acidentes de percurso, a convivência milenar entre tigres e seres huma­nos tem sido, de modo geral, pacífica, quanto mais não seja porque, durante a maior parte de sua história, os ho­mens não possuíam armas suficientemente poderosas que os encorajassem a enfrentar um animal tão perigoso sem necessidade. Como regra, enquanto os tigres não atacassem pessoas, e não cobrassem um tributo excessivo dos re­banhos domésticos, os humanos os deixavam em paz. Tem sido assim desde tempos imemoriais, das taigas geladas da Sibéria até as selvas tropicais da Indonésia, e das praias do Mar Cáspio até os confins orientais da Ásia – quer di­zer, em todas as paragens habitadas por tigres e humanos. Só o advento dos séculos XIX e XX, trazendo consigo ar­mas de fogo modernas e o conceito de "caça esportiva", é que mudou essa situação. É verdade que a medicina tradi­cional chine­sa – tão admirável em algumas coisas, tão estúpida em outras – há muito atribui poderes curativos (e sem qual­quer base em fatos) a diversos pedaços do tigre; a impressão que dá é a de que existe um raciocínio de que, se uma coisa é rara e difícil de obter, então ela necessariamente deve ter propriedades milagrosas. Em consequên­cia, o sangue do tigre, o pó de seus ossos, sua bílis, órgãos internos e várias outras partes valem um alto preço, mas, enquanto o bi­cho tinha que ser caçado com arco e flecha, lança, ou com mosquetes rudimentares de um só tiro, ha­via pou­quíssima gente disposta a encarar a bronca, por maior que fosse a recompensa em jogo. Armas mais eficien­tes mu­daram as coisas – não admira que o tigre-da-china esteja quase extinto. Não foi tão melhor na antiga União Soviéti­ca, cujo vasto território abrigava duas subespécies: o tigre-do-cáspio, extinto desde a década de 1960, e o ti­gre-da-sibéria, ou tigre-de-amur, o maior e mais possante de todos os tigres, que teve um pouco mais de sorte por habitar regiões muito re­motas e pouco populosas.

Porém, essa sorte não duraria para sempre. Nos primeiros tempos do comunismo so­viético, os tigres eram considerados uma praga, e o seu extermínio era incen­tivado pelo governo. Mais ou menos na mesma época em que o tigre-do-cáspio foi extinto, e com a população de tigres-­siberianos reduzida a poucas dezenas de exemplares na natureza, felizmente parece que alguém mais esclarecido teve acesso a um cargo no qual dispunha de poder para fazer algo a respeito, e foram promulgadas leis protegen­do os animais. Com isso, o número de tigres-siberianos subiu para algumas centenas ao longo das décadas seguin­tes, e conservacionistas do mundo inteiro já se sentiam mais tranquilos, quando chegou a década de 1990 – a déca­da da Perestroika, a reestruturação política e econômica que pôs abaixo a "Cortina de Ferro" que isolava a União Soviéti­ca do resto do mundo. A isso seguiram-se, sem muita demora, o fim da própria União Soviética e a implosão do co­munismo. Isso tudo teve duros efeitos sobre a sociedade e a economia da Rússia, com um empobrecimento ge­ral da população e um aumento drástico do desemprego. Muitos russos, sem outra alternativa de sobrevivência, passa­ram a tentar viver do que as florestas da Sibéria ofereciam, fosse por meio da caça de diferentes animais ou da ex­tração de madeira – invadindo o habitat dos tigres. Pior ainda, o relaxamento do controle das fronteiras permitiu a entra­da de caçadores ilegais vindos da China em busca dos tigres que já não existiam em seu país.

No entanto, Vladi­mir Markov, o caçador ilegal de 46 anos que foi morto por um tigre, nos arredores do vilarejo siberiano de Sobolo­nye, em de­zembro de 1997, não era chinês, e sim russo mesmo. A guarda florestal imediatamente chama a equipe local do pro­jeto conhecido como Inspec­tion Tiger, subordinado ao Departamento de Conservação e Caça. A equipe é lidera­da por Yuri Trush, ex-militar e experiente caçador, cujo trabalho, agora, consiste basica­mente em proteger os tigres contra caçadores ilegais – só que, na eventualidade de os papéis de caçador e presa se­rem troca­dos, isso tam­bém é de sua alçada. Quando Trush e seus companheiros chegam ao local, constatam que pouca coisa restou de Markov para ser vista; o mais desconcertante, entretanto, é que, a julgar pelos rastros e outros sinais deixados na cena da morte (sinais esses que um caçador experiente pode ler como se estivessem escritos num livro), o tigre não ma­tou Markov num encontro fortuito, e nem mesmo para se defender: ele o espreitou e caçou, com inteligência e paci­ência, talvez durante dias.


A primeira hipótese levantada é a de que Markov tivesse capturado um filhote a fim de vendê-lo, e sofrido a vingança da mãe, mas um dos companheiros de Trush logo descarta essa possibilida­de, por­que os rastros encontrados na neve são grandes demais para pertencerem a uma fêmea. E, como se descobre de­pois, ele está certo: o tigre responsável pela morte do caçador é um macho de cerca de seis anos – jovem, mas já adulto, e especialmente grande. No decorrer da mesma investigação, os agentes do Inspec­tion Tiger descobrem uma armadilha, obviamente instalada por Markov, e destinada à captura de tigres. Ou seja, é a prova de que o fale­cido não simplesmente lidava com incidentes ocasionais envolvendo tigres, como todo caçador da taiga está sujeito a ter: ele estava deliberadamente caçando os felinos, um crime grave perante a lei russa, mas também um negócio muito lucrativo.

Uma mente civilizada reluta em estabelecer o nexo entre Markov caçar tigres e o fato de ter sido morto por um. Afinal, nenhuma fera é capaz de desejar vingança, e tampouco de executá-la, não é mesmo? Um tigre pode atacar um caçador que atire nele, que tente roubar carne de uma presa que ele abateu, ou que ameace seus filhotes, e – embora isso seja muito raro – pode até mesmo atacar um ser humano como o faria com um ani­mal qualquer, levado simplesmente pela fome, mas todas essas situações podem ser atribuídas ao instinto de auto­preservação ou ao de defender a prole. Vingança requer compreensão de causa e consequência, capacidade de pla­nejar, e também de experimentar um sentimento semelhante ao ódio – tudo coisas demasiado complexas para um animal dito "irracional". Entretanto, a relutância em admitir essa possibilida­de não é compartilhada por povos nati­vos da Sibéria, como os nanai e os udeghe, que há séculos e milênios vivem em íntima comunhão com a taiga (um tipo de floresta característico das latitudes boreais). Para os caçadores desses povos, que tiram da floresta o susten­to de suas famílias, tal como seus ancestrais o fizeram desde tempos muito antigos, o tigre é tão inteli­gente quanto um homem, igualmente capaz de ser tanto generoso quanto cruel, de guardar rancor ou de perdoar, e, por tudo isso, é digno de ser tratado com respeito e cautela. Conversando com esses caçado­res nativos, Yuri Trush e seus ho­mens vão desenvolvendo uma compreensão diferente do incidente que tirou a vida de Markov – e que se repete al­guns dias depois: desta vez, a vítima é um jovem caçador de 20 anos, Andrei Po­chepnya, para quem Markov havia sido, além de vizinho e amigo, uma espécie de mentor. Se Pochepnya estava atrás de vingança, ou se simplesmente topou com o tigre enquanto caçava para pôr comida na mesa da família, não fica claro, mas o problema nas mãos de Trush e sua equipe fica cada vez maior. Sem alternativa, os homens dão iní­cio a uma caçada perigosa em meio a um ambiente no qual o tigre parece capaz de desaparecer sempre que assim deseja, e, embora o animal esteja ferido e pareça raivoso, age com uma sagacidade quase sobrenatural, tornan­do sua caça um desafio ainda maior, e fazendo da leitura desta história uma experiência que o leitor não esquecerá fa­cilmente.

Citar críticas elogiosas feitas por escritores de renome ou por órgãos de imprensa conceituados é uma estratégia muito comum para alavancar as vendas de livros de todos os gêneros, mas uma das que aparecem na contracapa de O Tigre me parece certeira: al­gum crítico do jornal francês Le Monde teria escrito que o livro é "o equivalente de Moby Dick para a floresta", e eu concordo, por pelo menos duas boas razões. A primeira é a combi­nação mortífera de ferocidade e inteligência, de­monstrada tanto pelo grande cachalote branco de Herman Melville quanto pelo tigre homicida caçado por Trush e seu grupo – o que confere a ambas as narrativas um clima aflitivo impossível de compreender sem lê-las. A outra é que o esquema geral de Moby Dick parece ter servido de inspira­ção a John Vaillant: Melville intercalava capítulos que narravam a caçada ao cachalote com outros de conteúdo en­ciclopédico, versando sobre cetologia, sobre a ativi­dade baleeira e assuntos afins; Vaillant alterna a investigação das mortes de Markov e Pochepnya e a perseguição ao tigre com dissertações sobre aspectos históricos, geográficos e humanos da Rússia em geral e da Sibéria em particu­lar, e com uma ampla e fascinante pesquisa na qual a antropo­logia dialoga com a história natural.

Os grandes primatas (entre eles nós, hominídeos) e os grandes felinos evoluí­ram de forma paralela, em muitos casos partilhan­do o mesmo habitat, e, durante 90 por cento do tempo, ou mais, os respectivos papéis eram muito claros: eles eram os predadores dominantes, e nós, presas eventuais. Nosso medo atávico do escuro (e quando digo "nosso", não que­ro dizer apenas dos humanos, mas dos grandes primatas em ge­ral) deve-se provavelmente ao fato de nossos ances­trais, durante pelo menos cinco milhões de anos, terem desen­volvido o hábito de buscar abrigo tão logo anoitecia, sob pena de tornarem-se o jantar de algum dentre uma longa lista de predadores noturnos, lista essa na qual leões, leopardos e outros felinos ocupavam lugar de destaque. Não tínhamos a menor chance contra essas feras: não po­díamos nem por sonhos rivalizar com sua força ou agilidade, e não tínhamos presas ou garras. Com o tempo, fomos encontrando maneiras de compensar essas desvantagens usando nossos dois principais trunfos – nosso cérebro e nossa habilidade manual. Aprendemos a fabricar armas cada vez mais eficien­tes e a agir em equipe de formas astu­tas, o que, aos poucos, equilibrou a balança, e depois a fez pender para o nosso lado. A partir daí, parece que passa­mos a merecer algum respeito da parte de nossos vizinhos felinos – pois, como Vaillant demonstra com base em di­versos estudos de especialistas, não somos os únicos animais capazes de incorporar novos conceitos e mudar nossos costumes de acordo com eles. Por muito tempo, os felinos viram os hu­manos como presas fáceis, mas, a partir do momento em que nossos ancestrais começaram a andar munidos de obje­tos pontiagudos e cortantes que podiam cau­sar sérios estragos, as feras passaram a evitá-los. Por outro lado, mes­mo que agora fosse capaz de se defender, o ho­mem primitivo não tinha qualquer desejo de procurar briga com ani­mais perigosos, a menos que fosse absoluta­mente necessário – um comportamento que foi passando de geração em geração, tanto entre felinos quanto entre humanos, até que se chegasse a um acordo de respeito mútuo, aquele do qual eu fala­va no começo do texto. Apesar disso, a escuridão, e o que quer que possa haver nela, continuaram e con­tinuam a nos intimidar, e devemos isso, em grande parte, aos ti­gres e seus parentes. Para mim, uma das coisas mais fasci­nantes a respeito da antropologia (e, mais especificamen­te, da parte dela que trata dos nossos ancestrais) é o fato de nos permitir compreender os moti­vos de sermos como somos.

O tigre-siberiano é um dos mais belos animais que alguém seria capaz de imaginar, e também um dos mais aterradores. Mais peludo e corpulento que seus paren­tes de regiões quentes, é uma perfeita má­quina de ma­tar que pode atingir (e, por vezes, ultrapassar) 300 quilos de peso e três metros de comprimen­to to­tal, medindo do fo­cinho à extremidade da cauda. Seus dentes cani­nos têm o comprimento de um dedo indica­dor, a mandíbula é pode­rosa o suficiente para partir o fêmur de um boi com uma única mordida, as garras são cur­vas como ganchos e afia­das como navalhas. Todo esse arsenal está a ser­viço de um cérebro astuto de predador: tal­vez por viverem e caça­rem sozinhos, os tigres parecem ter boa capacida­de de plane­jamento (sim!) e de lidar com situa­ções inesperadas, muito mais que seus primos, os leões. Nenhum animal da tai­ga está a salvo de seu apetite: o tigre pode se alimentar de qualquer coisa, de ratos-silvestres a bisões adultos, e, pasmem, até mesmo de animais que, em qualquer outro lugar, costumam ocupar o topo da cadeia ali­mentar, como ursos e lobos (!). Entretanto, parece que suas presas fa­voritas são cervídeos de grande porte (alce, rena, wapiti) e javalis.

Estima-se que existam hoje cerca de 500 ti­gres-siberianos em liberdade, mais uns cem em zoológicos e cen­tros de preservação em diferentes países. É o sufici­ente para que a subespécie não corra pe­rigo imediato, mas há outro fa­tor complicador a colocar em risco seu futuro: a gradual redução do espaço vital disponí­vel devido à ocupa­ção hu­mana. Foi-se o tem­po em que "Sibéria" designava uma região isolada e quase despo­voada, para onde eram mandados os prisioneiros políticos: hoje ela tem grandes ci­dades e uma população superior a 25 milhões de habi­tantes. Para complicar, o ti­gre, como todo predador de gran­de porte, necessita de um território vas­to – algo em tor­no de 450 quilômetros qua­drados para um macho adulto, sen­do que essa área pode sobrepor-se aos territórios de até duas ou três fêmeas. Embo­ra a Rússia tenha estabeleci­do reservas naturais visando tanto a preser­vação do tigre quanto de outras espéci­es, o sim­ples tamanho dessas reservas torna quase impossível um controle cem por cento efeti­vo; além disso, mais difí­cil que impedir que caçadores entrem, é impe­dir que os animais saiam. Há planos de trans­ferir certo número de ti­gres para o Par­que Pleistoceno, uma reserva natural no nordeste da Sibéria, onde biólogos estão tentando restabe­lecer as condi­ções ecológicas que lá existiam perto do final da última Era Gla­cial, por meio da reintrodução de espé­cies que habi­tavam a região na época. Mesmo antes que a área se tornasse um parque, já vi­viam nela animais como ur­sos, lobos, alces, renas e ja­valis; desde então, foram reintroduzidos com su­cesso bois-al­miscarados, bisões, wapi­tis, ca­valos selvagens, saigas e linces (e, se o projeto de clonagem que está ten­tando trazer de volta os mamutes for bem-­sucedido, o local será, sem dúvida, um lar confortável também para esses gigantes do passado – isso não seria for­midável??). Ainda estão em andamento os estudos sobre a viabilidade de ter tigres vi­vendo lá, e, de qualquer for­ma, será necessário aguardar que a popula­ção de herbívoros aumente até atingir núme­ros que permitam que sir­vam de alimento aos grandes feli­nos sem peri­go para sua própria conservação. Outra ideia, ainda mais ambiciosa, consiste em repovoar com tigres-siberianos as áreas antigamente ocupadas pelo extin­to tigre-do-cáspio, o que re­presentaria um aumento importante do espaço vi­tal disponível para a subespécie, mas isso ainda é uma possibilida­de distante. Por enquanto, o tigre-­siberiano só pode contar mesmo com as reservas que já ocupa, no extremo orien­te russo.

Acho que foi Jacques Cousteau quem declarou que ficava atônito de pensar que, durante o tempo de duração de sua vida, o homem, de­pois de milênios lutando contra a natureza pela sobrevi­vência, teve que fazer um giro de 180 graus e passar a empe­nhar-se em defendê-la, porque percebeu – e esperemos que não tenha sido tarde demais – que é preciso encontrar um equilíbrio. Continuando o pensamento de Cousteau, eu diria que o tigre é um perfeito exemplo concreto dessa ideia mais geral sobre a natureza. Junto com outras feras predadoras, ele fez parte dos nossos pesa­delos na pré-his­tória, e, ao longo de toda a construção da nossa cultura, foi sempre temido – pri­meiro, só temido; depois, temido, admirado e cobiçado de morte. Hoje, temos que nos esforçar para salvar os últi­mos deles, se não quisermos ser os responsáveis por legar às gerações futuras um mundo onde os tigres não exis­tam, um mundo, por­tanto, despojado de um pouco (na verdade, um muito) de sua beleza e terror. Eu fico pensando no quanto vai ser triste se, daqui a um ou dois séculos, uma criança de então abrir um livro, maravi­lhar-se com a ilustração represen­tando um gigan­tesco gato listrado de amarelo e preto, tão forte, majestoso, fasci­nante e terrível, e sentir a frustra­ção de saber que tal animal não existe mais, que nunca lhe será possível ver um de­les vivo e respi­rando – o mesmo tipo de frustração que eu, tanto em criança quanto ainda hoje, sentia e sinto ao abrir um livro e fi­car olhando com espanto para ima­gens de arsinotérios, gliptodontes, entelodontes, rinocerontes peludos e tantas outras feras magní­ficas que nunca vou ver a não ser em livros mesmo. Na verdade, acho que será mais triste ainda, porque essa crian­ça do futuro esta­rá olhando para fotografias, e não para pinturas; para um ani­mal cuja extinção não foi natural, e sim culpa do ho­mem. E ficará sabendo que tivemos uma chance de salvar o ti­gre, e não o fizemos. O que seria uma grande, grande vergonha.

quarta-feira, dezembro 16, 2015

Rosto de Caveira, Os Filhos da Noite e Outros Contos

Vocês talvez lembrem que, no post a respeito de Salomão Kane, observei que muitas coisas nas aventuras do valente puritano sinalizavam um interesse, por parte de Robert E. Howard, pela literatura de terror, inclusive especulando que, caso tivesse vivido mais, o autor, muito provavelmente, ter-se-ia dedicado ao gênero em algum momento. Bem, este outro livro veio para me mostrar que ainda estou longe de conhecer a obra do cara tão bem quanto julgava. As histórias de terror de Howard não são uma coisa hipotética: elas estão bem aqui.

O que encontramos em Rosto de Caveira, Os Filhos da Noite e Outros Contos são histórias com a marca inconfundível de Howard, já conhecida de quem leu as aventuras de Conan e outros de seus trabalhos. Um estilo um tanto hercúleo, vamos dizer assim – mais vigoroso que elegante. Nada que o tempo, a prática e a leitura de grandes vultos da literatura universal não tivessem resolvido, se tivesse havido chance para tanto. Isso me faz lamentar duplamente a morte precoce do escritor, pois, caso não tivesse desistido de viver, ele certamente nos teria brindado com um vasto número de novas obras – veja-se a quantidade de material que produziu em tão poucos anos –, além de, com igual certeza, evoluir muito em técnica e estilo. Caras, pensem no que seria ler um romance que Howard tivesse escrito nos seus maduros 60 ou 70 anos, aliando a tremenda imaginação que conhecemos com a experiência e a habilidade acumuladas numa longa carreira… Mas estou de novo escorregando para o universo do what if. Desculpem.

A primeira história, e a mais longa (ocupando sozinha mais de metade do livro) é Rosto de Caveira. O personagem-narrador chama-se Stephen Costigan, mas, segundo especialistas em Howard, é distinto de Steve Costigan, um marinheiro e boxeador que protagoniza quase 30 histórias e foi um forte candidato a personagem mais popular do autor – antes do aparecimento de Conan, é claro. O Costigan a quem somos apresentados aqui é um ex-combatente da Primeira Guerra Mundial, cuja mente foi severamente afetada pelas cenas de horror testemunhadas na batalha de Argonne, em 1918. Constantemente atormentado pelas lembranças traumáticas da guerra, Costigan busca amortecer a mente por meio do haxixe, e acaba afundando-se na droga até ao ponto de arruinar sua vida. É assim que vamos encontrá-lo, num "templo dos sonhos" (estabelecimento onde pessoas se reuniam para usar drogas) no coração do bairro oriental de Londres.

Antros de vício desse tipo eram comuns na China e em outros países do oriente na época em que a história parece se ambientar (final da década de 1920), depois de a Inglaterra, durante o século XIX, haver incentivado o cultivo de ópio e haxixe na Índia; essas drogas eram traficadas para a China e região por companhias britânicas. Com isso, o aumento da oferta e a consequente queda do preço e facilidade de acesso a essas substâncias haviam transformado o vício numa epidemia. Não havia cidade naquela parte do mundo onde não existissem um ou vários "templos dos sonhos", e também era muito provável haver um em qualquer lugar onde se concentrasse um grande número de habitantes de origem chinesa – como a "Chinatown" londrina, onde Costigan está consumindo sua saúde e seus recursos quando a história começa.


Quando tem a primeira visão do "homem de rosto de caveira", o ex-soldado pensa que é apenas mais uma alucinação produzida por sua mente entupida de haxixe, mas depois, mesmo do fundo de seu entorpecimento, ele percebe que o ser em questão é bem real. Trata-se de um indivíduo muito alto, magro como um esqueleto e com feições de acordo, parecendo ter o crânio coberto apenas por uma pele enrugada e pergaminhosa, que vive escondido num conjunto de câmaras secretas no prédio que abriga o "templo dos sonhos", e a quem até o todo-poderoso Yun Shatu, proprietário da casa, trata com subserviência. O estranho personagem diz chamar-se Kathulos e ser originário do Egito. Kathulos, a certa altura, manda buscar Costigan e, com o que parece ser um toque mágico, livra-o instantaneamente da dependência da droga, dizendo que tem um trabalho em mente para ele, o qual exigirá que esteja em sua melhor forma. Costigan, tomado de enorme gratidão, está disposto a fazer quase qualquer coisa que seu estranho benfeitor peça – pelo menos até descobrir que as coisas não são bem como parecem. Seus sentidos estão extraordinariamente alertas e ele se sente mais vigoroso que nunca, mais até do que em seus melhores tempos, mas parece-lhe que tudo isso faz parte da sensação maravilhosa de ter-se livrado do torpor da droga; entretanto, com o tempo, fica evidente que Kathulos, secretamente, administrou-lhe alguma outra substância, capaz de operar mudanças tão espetaculares e repentinas, e que o fez porque espera utilizá-lo como um peão em planos terríveis. A partir daí delineia-se o confronto que guiará os eventos da história. Kathulos, diga-se, não é realmente egípcio; suas origens são ainda mais antigas e misteriosas que as de qualquer múmia. Dizer mais que isso seria revelar demais, mas quero observar que o gosto de Howard por colocar seus heróis cara a cara com um mal antigo, vindo de eras esquecidas, certamente devia muito à amizade e admiração que ele dedicava a H. P. Lovecraft.

Também em suas outras características, Rosto de Caveira é puro Robert E. Howard: ação vertiginosa do início ao fim, quase sem interrupção, um herói forte e determinado, vilões cruéis, mistérios, combates violentos, e uma bela mocinha de aparência e nome exóticos (Zuleika, nada menos que isso), e que, embora frágil à primeira vista, acaba revelando uma insuspeitada coragem, demonstrando-se uma companheira digna do herói. Enfim, se mudássemos a ambientação, os nomes e alguns detalhes do enredo, a história poderia facilmente ser transformada numa aventura de Conan. Portanto, não se trata de terror, embora incorpore alguns elementos típicos desse gênero; é uma história de aventuras, e muito boa.

O terror mesmo aparece depois que Rosto de Caveira termina e dá lugar a sete contos de variadas extensões e temáticas. Na Floresta de Villefore e Cabeça de Lobo são sobre a lenda do lobisomem, ambas ambientadas no século XVII ou XVIII, e unidas pela presença de um mesmo personagem, Monsieur de Montour, um fidalgo da Normandia (França). A primeira, bem curta, passa-se numa floresta do interior da França, tida como assombrada, e conta como foi que De Montour veio a contrair a maldição da licantropia; a outra tem lugar numa propriedade colonial na costa da África, e conduz o personagem a um destino bastante inesperado. A Serpente do Sonho lembra alguns contos de Guy de Maupassant, com o narrador delegando a outro personagem a tarefa de contar a história, de modo que os elementos inacreditáveis ficam envoltos naquela aura duvidosa do "só estou contando conforme ouvi" (um recurso parecido também é utilizado em Cabeça de Lobo). O modo como sonho e realidade se mesclam na narrativa confere à história um encanto macabro. A Hiena é um conto sobre bruxaria africana, apresentando o que poderíamos considerar como a versão local da licantropia. Certo, o nome licantropia vem do grego lykos, 'lobo', mas o fato de não existirem lobos na África não é impedimento para que o Continente Negro tenha suas próprias lendas a respeito de homens que se transformam em animais. A principal diferença, afora o animal em questão, é que, em A Hiena, a metamorfose não aparece como uma maldição, e sim como uma habilidade somente possuída por feiticeiros de grande poder. Em A Maldição do Mar, temos um narrador que não atua diretamente na história, mas passa por ter sido testemunha ocular dos fatos; o cenário é a cidadezinha costeira de Faring, que poderia ficar no litoral norte-americano ou britânico, provavelmente no século XIX. John Kulrek, um marinheiro fanfarrão e chegado ao álcool, estupra uma garota do lugar, que, desesperada depois do ocorrido, comete suicídio lançando-se ao mar. Acontece que a tia da jovem, com quem ela vivia, tem fama de feiticeira, e lança uma maldição sobre Kulrek – uma maldição que irá cumprir-se de modo sinistro.

Não obstante, o conto mais apetitoso do livro, na minha opinião, é o último, Os Filhos da Noite, publicado originalmente na edição de maio de 1931 da revista Weird Tales. Além de ser, em si, uma história envolvente, ela também é notável pelo grande número de conexões que consegue estabelecer ao longo de suas modestas 30 e poucas páginas. O início dá a impressão de que será um tranquilo conto-ensaio: seis intelectuais, entre eles o Prof. John Kirowan (que tem histórias próprias como protagonista, mas aqui aparece como um personagem secundário) estão reunidos no estúdio de um deles, entretidos em discussões fascinantes de cunho antropológico, literário e mítico. Quando o assunto envereda para cultos misteriosos, Howard não perde a oportunidade de mencionar o Necronomicon, bem como o Grande Cthulhu e outras divindades monstruosas de tempos esquecidos – de modo que Os Filhos da Noite pode ser considerado parte dos Mitos de Cthulhu, iniciados por H. P. Lovecraft e que continuam crescendo até hoje. Howard, aliás, escancara toda a sua admiração pela obra do amigo ao colocar na boca de um dos personagens a opinião de que seu O Chamado de Cthulhu forma a tríade das melhores histórias de terror já escritas, junto com O Selo Negro, de Arthur Machen, e A Queda da Casa de Usher, de Edgar Allan Poe.

Além do narrador John O'Donnel, do Prof. Kirowan, do anfitrião Conrad e de dois outros, está presente um homem conhecido como Ketrick, que, apesar de descender de pura linhagem anglo-saxônica, documentada desde os "dias do rei Canuto" (ou seja, desde o início do século XI!), tem estranhos olhos de feitio oriental e coloração amarelada, além de um sutil sibilar em sua fala, que O'Donnel acha um pouco incômodo. Conforme a conversa sobre cultos misteriosos prossegue, um dos participantes, de nome Clemants, menciona um tal "culto Bran", focado num "rei que governa o Império das Trevas, (…) e sobre a enorme e inominável caverna onde está o Homem das Trevas, a imagem de Bran Mak Morn, escavada à perfeição por uma mão de mestre quando o grande rei ainda era vivo. (…) Sim, esse culto ainda está vivo entre os descendentes do povo de Bran (…)." Isso é uma conexão com outra das criações do próprio Howard, o fictício Bran Mak Morn, que teria sido rei dos pictos na Caledônia (a atual Escócia) nos tempos do Império Romano – império esse ao qual ele devotava um ódio implacável.

Os historiadores têm pouco a oferecer sobre esse povo, os pictos, e mesmo o pouco que oferecem é controverso. Algumas fontes os dão como sendo um ramo primitivo dos celtas; de fato, o grande grupo étnico conhecido genericamente como "celta" comportava inúmeros subgrupos muito diferentes uns dos outros em cultura e tecnologia: enquanto algumas tribos dominavam técnicas sofisticadas de metalurgia, construíam grandes cidades e desenvolviam avançados sistemas de governo, outras viviam em choças de barro e palha, caçavam com armas de pedra polida, andavam pintadas e seminuas. Os pictos, então, fariam parte desse segundo tipo. Porém, também há quem os considere um povo à parte, totalmente distinto dos celtas, e que já ocupava as Ilhas Britânicas muito antes de estes últimos lá chegarem­. Não há mais como saber: fossem ou não celtas, os pictos foram completamente absorvidos, ao longo da Idade Média, por outros povos da região, mais numerosos e de cultura mais avançada. Traços de sua herança genética ainda podem ser encontrados no DNA de escoceses e irlandeses; de sua língua, só restaram alguns nomes de lugares. De qualquer forma, o costume picto de marchar para a guerra com o rosto pintado com a tinta azul obtida da flor conhecida como ísatis sobreviveu entre os escoceses até tempos bem recentes.

Não vamos esquecer que Howard, embora adorasse História e tivesse sólidos conhecimentos nesse campo, não era um historiador, e sim um escritor de ficção, e, como tal, podia valer-se de licença poética, o que significa que o que lemos em suas histórias, na maioria das vezes, não deve ser levado tão a sério – afinal, trata-se de entretenimento. Ainda assim, ele tem uma teoria interessante:

Com certeza o povo conhecido mais tarde como os selvagens pictos de Galloway era predominantemente celta, uma mistura de galeses, cymrics, aborígines e possivelmente elementos teutônicos. Se tomaram seu nome de uma raça mais antiga ou emprestaram seu próprio nome a essa raça, ainda não se sabe. Mas quando Von Junzt fala dos "pictos", ele se refere especificamente ao povo de baixa estatura, pele morena, comedor de alho, de sangue mediterrâneo, que trouxe a cultura neolítica para a Grã-Bretanha. Na verdade, foram os primeiros colonizadores daquela área (…).

(A tradutora Bárbara Guimarães quase sempre traduz people por 'pessoas', mesmo quando 'povo' seria obviamente a tradução correta; nesse excerto, tomei a liberdade de corrigir essa falha, fazendo as adaptações necessárias.)

"Sangue mediterrâneo" está de acordo com o que dizem os estudiosos que defendem a teoria de que os pictos eram um povo separado dos celtas: nesse caso, eles seriam provavelmente originários da Península Ibérica. Por outro lado, o próprio nome "pictos" não é nenhuma palavra ancestral e de origens incertas, como Howard faz parecer: é latim, e quem lhes deu esse nome foram os conquistadores romanos, a partir do primeiro século d.C. Significa simplesmente "pintados", aludindo ao costume já referido de desenharem símbolos tribais com tinta azul pelo corpo e rosto. Não se sabe como os pictos chamavam a si próprios. Mas, em resumo, a ideia de que podem ter existido dois povos distintos conhecidos como pictos – um, mais antigo, pequeno e moreno, e outro, mais recente, de biotipo celta – poderia explicar muita coisa.

Bem… A certa altura, no embalo desses assuntos, o dono da casa, Conrad, mostra a seus convidados um antigo martelo de pedra polida cuja cabeça foi encontrada nas colinas da Escócia; ele mesmo lhe colocou um cabo, para deixá-lo tal como devia ser na época em que era usado por seus misteriosos fabricantes, quem quer que tenham sido. A ferramenta (arma?) primitiva passa de mão em mão, até que, ao chegar sua vez, Ketrick consegue, sabe-se lá como, dar com ela na cabeça de O'Donnel, que perde os sentidos… E tem um sonho muito estranho, se é que é um sonho. Nele, o narrador se vê como Aryara, um jovem guerreiro de uma tribo que chama a si própria de "o Povo da Espada", e que presumivelmente viveu em algum lugar das Ilhas Britânicas em tempos antigos. E Aryara está envolvido num desesperado combate contra uma raça estranha, que quase nem parece humana: são criaturas pequenas, de cabeça grande, orelhas pontudas, olhos rasgados, pele amarelada, e com uma inconfundível nódoa reptiliana em sua aparência geral. Segundo as histórias que Aryara lembra de ter ouvido em sua tribo, esses seres dominavam aquela terra antes da chegada do Povo da Espada (provavelmente uma tribo celta de cultura primitiva), e antes até dos pictos. Apesar do pequeno tamanho, são seres perigosos, além de intrinsecamente malignos. Aryara nada sabe sobre O'Donnel, mas este, ao despertar, traz consigo a memória completa da aventura do guerreiro, o que muda totalmente seu modo de ver a si mesmo, sua raça e a História, além de oferecer uma razão para a vaga e inexplicável antipatia que ele sempre havia sentido por Ketrick. Detalhe: o recurso de um golpe na cabeça que faz o herói perder os sentidos e mergulhar em recordações de outra existência seria reaproveitado por Howard na história O Povo das Trevas, publicada um ano depois, e que apresentaria uma espécie de protótipo de Conan, cujo surgimento oficial se deu pouco mais tarde.

(Só para ilustrar como Howard não fazia a menor cerimônia para misturar as coisas como bem entendesse, e que, portanto, devemos ser cautelosos ao lê-lo: Aryara chama o deus de seu povo de Ilmarinen, um nome sem conexão alguma com a língua ou a cultura do povo que o autor estava, teoricamente, tentando retratar. Ilmarinen, ferreiro e guerreiro, era irmão do bardo e mago Vainamoinen – isso no Kalevala, o épico nacional da Finlândia. FINLÂNDIA.)

Quando vocês forem ler Os Filhos da Noite, não fiquem demasiado incomodados com as enfáticas e repetidas afirmações de O'Donnel a respeito do "sangue limpo" de saxões e celtas, que deveria ser preservado da "contaminação" pelo contato com "raças malignas"; as raças malignas a que ele se refere não são humanas e são totalmente fictícias. Além disso, não esqueçam que a história é de 1931, de modo que Howard não tinha como saber até onde um discurso parecido levaria a humanidade anos mais tarde, nem como prever que asserções desse tipo soariam tão mal aos ouvidos das gerações vindouras. Procurem ler com senso de perspectiva, levando em conta a mentalidade da época, que não era a mesma de hoje, e divirtam-se, que foi para isso que essas histórias foram escritas.